Venho aqui deixar meu relato. Meu pai sempre foi uma pessoa que eu tive como inteligente. Quando eu era criança, sempre o via lendo livros de Allan Kardec (ele é kardecista) ou algum outro livro que caísse na mão dele. Ele me dava livros, às vezes desenhava comigo e sempre estimulou isso em mim. Muito do que eu sou hoje vem desse incentivo.
Somos uma família pobre. Meu pai foi metalúrgico a vida toda e, há um tempo, largou isso pra ser Uber Moto, porque sente que assim tem mais liberdade 💀. Eu segui pelo caminho da faculdade, estudei em instituição pública e hoje trabalho na Faria Lima. Apesar disso, sou uma pessoa abertamente de esquerda. Eu ascendi graças a políticas sociais e a muito esforço, inclusive dele. Ele nunca teve essa oportunidade, mas sempre estudou por conta própria.
Tudo começou a mudar em 2018, quando ele passou a defender o Bolsonaro, alguém que eu não vejo como uma boa pessoa. E ele seguiu insistindo nisso ao longo dos anos. Mas quero deixar claro: ele ser de direita nunca foi o problema pra mim. Cada um tem o direito de ter a sua posição.
O problema é o conspiracionismo. Hoje tudo, pra ele, é explicado por forças ocultas: globalistas, o "sistema", acordos secretos. Aquecimento global não existe, protetor solar é invenção. Sobre a eleição atual, a teoria dele é que foi um acordo entre os poderes pra que o Flávio não tivesse poder demais. O povo, a mobilização, a campanha? Esquece, nada disso contou. E ele mistura tudo com espiritismo, então política, história e espiritualidade viram uma coisa só, onde sempre existe um plano escondido que só ele enxerga.
E não é que eu seja contra espiritualidade. Eu também acredito, sou umbandista, acredito em forças que nos ajudam e leio meu tarô. Mas, pra mim, isso não vira verdade absoluta sobre o mundo, nem substitui os fatos ou tira das pessoas a responsabilidade pelo que fazem. Fé pode orientar a gente, mas não pode servir de prova pra política ou pra história.
Tentei estudar pra entender de onde vem isso. Acredito que parte venha de um ressentimento por ele não ter estudado. Ele tem uma certa rejeição à academia e, na minha teoria, à esquerda também, justamente porque a esquerda tem essa vibe meio intelectualizada e pouco com a cara do povo, pelo menos em muitos segmentos. E isso é algo que eu mesma critico.
Pra mim, isso foi muito bem descrito no livro "Amanhã vai ser maior", da Rosana Pinheiro-Machado, que fala de como esse tipo de pensamento foi afetando algumas pessoas.
O que mais me dói é que ele sempre se coloca como o detentor do conhecimento. Quando eu falo que estudei, que minha posição é pensada, ele responde com áudios de 3, 4 minutos explicando por que eu não sei tanto assim. Eu já parei de tentar convencer. Agora só tento manter a relação.
Sinto raiva, mas também sinto pena, dele e de mim. E me preocupo com como vai ser esse senhor quando ficar mais velho.
Alguém mais passa por isso com pai ou mãe? Como vocês lidam?